29.5.12

Os postos de combustíveis e as calçadas

Posto Petrobrás no bairro do Barbalho, em Salvador

É um completo absurdo que a Prefeitura de Salvador e de muitas outras cidades brasileiras permitam que os postos de gasolina transformem toda a sua extensão em área permeável ao acesso de carros. As calçadas são suprimidas e os pedestres parecem intrusos no ambiente que lhes pertence, transformando-se em alvos ambulantes para os irresponsáveis de plantão. Em cidades como Santiago, no Chile, a calçadas são preservadas; os carros têm entradas e saídas definidas, com sinalização adequada ao pedestre.

Mais do que na hora de uma Lei Municipal corrigir essa aberração.

Posto em Santiago, Chile. Calçadas e sinalização.

Imago Urbis na Amazon




O livro "Imago Urbis" já está à venda online na Amazon, mas também pode ser lido online: http://issuu.com/marcosrodrigues/docs/imagourbis

Rhapsody in Blue


Porto de Salvador

Rios da cidade de Salvador: atraso e contramão da história




No momento, nos é vendida a ideia de que uma Salvador melhor, uma cidade do futuro, com infraestrutura eficiente e adequada está por ser construída, num curtíssimo espaço de tempo, visando o atendimento aos requisitos exigidos às cidades-sedes dos jogos da Copa do Mundo de Futebol de 2014.

Porém, essa estratégia falaciosa não pode sanar o caos urbano instalado em nossa cidade, fruto de um déficit já histórico de planejamento e de investimentos em questões-chaves ao desenvolvimento urbano, e, ao qual se somam a pobreza e a marginalidade de imensa parcela dos soteropolitanos.

Salvador teve um período de planejamento, no qual as avenidas de fundo de vale foram concebidas, visando estruturar o sistema de deslocamento da população. Estas são ainda hoje as principais vias nas quais escoam (lentamente) carros, ônibus, caminhões e, atualmente, uma grande quantidade de motocicletas e bem poucas bicicletas.

Tais avenidas, assim como outros aspectos do tipo de crescimento urbano adotado em Salvador, causaram impactos ao escoamento dos rios, que outrora proporcionaram não só a fundação da cidade, como nela desempenhavam inúmeras funções urbanas.

Atualmente, os rios, constrangidos em suas larguras de cheia, têm ainda que dar conta de enormes volumes de águas que não tem mais como penetrar nos solos em função do rápido desaparecimento das áreas livres, especialmente as áreas verdes. E esses volumes, cada vez mais, incluem esgotos, sedimentos e lixo. Dessas relações, entre os nossos rios e a ocupação intensa e inadequada dos solos da cidade os problemas emergem: alagamentos, poluição, riscos de diversas ordens, incluindo à saúde pública, dentre outros.

Grandes cidades mundo a fora, incluindo algumas brasileiras, hoje buscam reverter o caos resultante dessa má conduta, insustentável sob o ponto de vista ambiental, social e econômico. Soluções ambientalmente mais corretas passam por gerenciar integradamente a infraestrutura urbana, iniciando-se pela definição da ocupação do espaço com preservação de funções naturais como a infiltração e a rede natural de escoamento (os rios!), e a redução e controle das fontes de poluição.

Como alguns exemplos, nos EUA este tipo de desenvolvimento tem sido adotado e denominado Low Impact Development, ou Desenvolvimento de Baixo Impacto. Na Austrália tem sido denominado Water Sensitive Urban Design, algo como, Desenho Urbano Associado à Água. Na Europa um projeto denominado SWITCH (Sustainable Water Management in Cities of the Future) reflete essa tendência de mudança de rumo no trato das águas no meio urbano.

A remoção de represas obsoletas, a retirada do revestimento do fundo e das margens dos rios canalizados, o reordenamento das faixas laterais aos rios, com o replantio de vegetação para a criação de espaços livres para lazer, mas também para que o rio encha ocasionalmente, têm sido algumas das iniciativas visando a ?renaturalização? de áreas das cidades.

Essas ações visam a melhoria da qualidade paisagística e ambiental urbana, a restauração da função social dos rios e a melhoria da drenagem de águas das chuvas, além de outros benefícios.
Têm sido emblemáticas as iniciativas para despoluição e reintegração às cidades dos rios Tâmisa à Londres, Sena à Paris, Cheonggyecheon à Seul, dentre outros, e no Brasil os casos dos rios das Velhas à Belo Horizonte, rio Barigui à Curitiba, além de ações iniciais para melhoria do Tietê em São Paulo.

Salvador tem caminhado na contramão dessa tendência. Sob a égide da ganância imobiliária tem-se avançado desenfreadamente sobre áreas remanescentes de vegetação, aterrado lagoas e cursos d?água, na pressa em aproveitar o momento econômico de uma população de classe média que se endivida avidamente, e sem os limites de um efetivo e consequente ordenamento e controle do uso do solo urbano por parte do Poder Público.

Nesse contexto insustentável, a cobertura de rios em Salvador se tornou regra. Parece ser a única solução existente para esgotos nas águas, para os problemas de captação e destino dos esgotos e dos resíduos sólidos (lixo), e finalmente para o caso da presença de odores e de mosquitos. Esconder esses problemas sob tampões de concreto é a forma mais simples encontrada pela Administração Municipal, subsidiada por gordos recursos públicos federais (Ministério da Integração) e com a conivência da maioria dos membros do Conselho Municipal de Meio Ambiente.

A cobertura do Rio dos Seixos, na Avenida Centenário, foi o início dessa nova fase da tecnologia anacrônica adotada em Salvador, a um custo de quase 30 milhões de reais. A seguir, no Imbuí, a um custo de 57 milhões de reais, um parque linear árido e cheio de edificações surge, não ao longo do rio, como vem ocorrendo em tantos lugares, mas sobre o rio das Pedras. Intervenções como essa denunciam a forma fragmentada e pontual de atuar sobre os rios, que, paradoxalmente, como corredores de água e matéria orgânica, são verdadeiros símbolos de continuidade e interdependência entre os seus diversos segmentos e trechos.

Neste momento, obras avançam para esconder o trecho do Rio Lucaia, confinado entre as pistas da Avenida Vasco da Gama (fotos), a um custo previsto de 49,84 milhões de reais! E outras obras similares estão anunciadas, enterrando nossos rios, e ?rios? de dinheiro público. Ressalte-se que no linguajar dos atuais administradores do Município, não temos rios, mas apenas canais de esgoto. Uma enorme miopia!

A falta de investimentos em infraestrutura viária, a entrega do solo urbano ao capital imobiliário, que não distingue elementos importantes da paisagem, tem gerado também enormes déficits no sistema de mobilidade e de espaços públicos em Salvador. Assim, esses aspectos da cidade, fundamentais para a qualidade de vida urbana, e que deveriam ser prioritários no processo de desenvolvimento urbano, servem agora também como argumentos para a destruição dos rios.

Por fim, é importante ressaltar, que alternativas técnicas para os problemas da cidade existem. A solução única imposta pelos atuais administradores públicos segue uma lógica cega, de interesses econômicos (e políticos) e nega a participação social e a ação para um futuro mais responsável e com qualidade ambiental para Salvador. Temos a certeza que não há uma única solução para nossos problemas, e que estas também podem ser mais sustentáveis e inteligentes, e principalmente, fruto de discussões e aprofundamentos.

Salvador, 24 de outubro de 2011

Andrea Sousa Fontes (Profa. Dra. do CETEC/UFRB)
Antonio Emilson A. de Carvalho (Associação Movimento Paulo Jackson ? Ética, Justiça, Cidadania)
Aruane Garzedin (Profa. Dra. da UFBA)
Catherine Prost (Profa. Dra. da UFBA)
Coletivo Socioambiental ORGANISMO
Cristina Maria Alves de Jesus (Condomínio do Empreendedor Cultural, Salvador-BA)
Elaine Aparecida Rodrigues (Fórum Pró Cidadania)
Eratóstenes de Almeida Fraga Lima (Engo. Sanitarista, Ambientalista)
Everaldo Magalhães Santos (Associação Comunitária Eldorado, Castro Alves-BA)
Fernando Martins Carvalho (Prof. Titular da UFBA)
Fórum PRÓ CIDADANIA
Grupo Ambientalista da Bahia (GAMBÁ)
INSTITUTO BÚZIOS
Jussara Rocha Nascimento (Associação Movimento Paulo Jackson - Ética, Justiça, Cidadania)
Lafayette Dantas da Luz (Prof. Dr. da UFBA)
Léa Corrêa Pinto (Terrae Organização da Sociedade Civil e Movimento da Cidadania pelas Águas Florestas e Montanhas Iguassu Iterei)
Luiz Roberto Santos Moraes (Prof. Titular da UFBA)
Marcele Silva do Valle (Advogada, Mestranda em Desenvolvimento
Regional e Meio Ambiente)
Marcelo Fernandes Pereira (Eng.º Civil, Sindicalista)
Marco Antônio Tomasoni (Prof. Dr. da UFBA)
Marcos A. Rodrigues (Arquiteto, Professor Dr. UFBA)
Marcos Mendes (Geólogo, Mestre em Geologia Ambiental, Presidente
Estadual do PSOL BA)
Maria Aparecida Santos de Aguiar (Professora da UESC)
Maria Elisabete Pereira dos Santos (Prof. Dra. da UFBA)
Maria Lúcia Politano Álvares (Engenheira Civil, MSc)
Maria Teresa Chenaud Sá de Oliveira (Engenheira Civil, MSc)
Movimento da Cidadania pelas Águas Florestas e Montanhas Iguassu Iterei
Nair Floresta Andrade Neta
Paulo Romero Guimarães Serrano de Andrade (Prof. Dr. do CETEC/UFRB)
Patrícia Campos Borja (Profa. Dra. da UFBA)
Projeto Reh Nascer
Renato Paes Pegas da Cunha (Engo. Mecânico, Ambientalista)
Rogério Horlle (Engenheiro, conselheiro do meio ambiente pela AFA no COMAM de Salvador)
Severino Soares Agra Filho (Prof. Dr. da UFBA)
Sindicato de Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado da Bahia (SINDAE)
Stella Maris Miranda Sampaio
TERRAE Organização da Sociedade Civil
Yvonilde Medeiros (Profa. Dra. da UFBA)
Zoraide Vilasboas (Associação Movimento Paulo Jackson ? Ética, Justiça, Cidadania)

Imago Urbis, o livro



Seleção a partir dos ensaios publicados neste blog, entre os anos de 2006 e 2007. Os textos discutem a relação entre cidade, arquitetura e novas tecnologias da comunicação, esboçando novos caminhos para o entendimento da paisagem urbana contemporânea.

Este espaço serviu de canal de reflexão para articular as bases da minha tese de doutorado: "Dromorfoses da Cidade, A Paisagem Urbana na Era da Circulação Numérica". Imago Urbis, Escritos sobre Paisagem Urbana e Imagem da Cidade está disponível para leitura online aqui:  http://issuu.com/marcosrodrigues/docs/imagourbis . O livro impresso será vendido pela Amazon.com. Com esse título a Gattopardo abre a coleção Urbanorama.


Mas, afinal, o que é mobilidade urbana?


Mobilidade urbana não é um termo novo para conceitos velhos. Mobilidade urbana não é tráfego, não é trânsito, não é transporte, não é fluidez. Mobilidade urbana não é a forma mais rápida de se deslocar do ponto A ao ponto B. Embora o seu conceito tenha interfaces com tudo isso.

Mobilidade urbana é o potencial de qualquer ser humano de ir e vir nas cidades, escolhendo formas diversas para se deslocar de maneira segura e confortável. A melhor maneira para cada um. Isso significa que dentro do conceito de mobilidade estão meios diversos, percursos diversos, velocidades diversas, incluindo a possibilidade de paradas, descanso, ócio, trocas, interação. Do não deslocamento.

Mobilidade urbana pressupõe, então, a possibilidade de escolha e do direito à cidade, na sua acepção mais ampla, e demanda repensar as questões da escala humana, da diversidade humana (crianças, adultos, idosos). Pressupõe lidar com o espaço público e entender as implicações desse potencial de escolhas de ir e vir na materialidade urbana. Inclusive da possibilidade de não ir nem vir, proporcionada pelas novas tecnologias de informação e comunicação. As conseqüências no espaço físico, construído. Na paisagem urbana e nas questões ligadas às formas da cidade; que competem, sim, aos arquitetos pensarem, dentro desse objeto multidisciplinar que são as cidades.

A ponte de Wagner


O governador Jacques Wagner apresentou no último dia de setembro, um vídeo com a simulação de uma ponte que liga Salvador a Itaparica.

Contrariando todas as observações feitas por diversos urbanistas baianos, o desenho da ponte tem a sua cabeceira em Salvador localizada na altura da Feira de São Joaquim, provavelmente ligando-se à entrada da Via Portuária. O projeto está orçado em cerca de 7 bilhões de Reais e é encabeçado pelo consórcio OAS / Odebrecht / Camargo Corrêa. As obras estão previstas para durar de 2014 a 2018.

A ponte, se vier a ser construída, mudará radicalmente a paisagem da Baía de Todos os Santos. Não se fala de estudos de impactos ambientais e nem das consequências dos fluxos de trânsito nos dois extremos da ponte. O governador fala de forma escancarada, no entanto, da mudança dos PPDUs de Vera Cruz e Itaparica para que a indústria imobiliária possa explorar os dois municípios.

Tenha medo.