Sobre cidades, comunicação e consumo


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O fato de que o ambiente construído das cidades ou a 'arquitetura da cidade', como queiram, há muito vem tendo sua supremacia relativizada como dispositivo hegemônico nas construções de 'perceptos' não deveria causar espécie a nenhum estudioso sério da matéria. A observação de Victor Hugo em Notre Dame de Paris (séc.XIX) quando compara a importância do livro frente à catedral, 'ceci tuera cela', já era bastante pertinente no prognóstico de que as tecnologias da comunicação e da informação criam também novos suportes da memória, bem como novas formas de imersão na cidade, relativizando aquela escrita estática inerente à categoria dos monumentos físicos.

Os tempos modernos trouxeram a multiplicação dos objetos e a sua circulação em velocidade. As mídias digitais elevaram à enésima potência essas propriedades e chegamos onde nos encontramos agora. Estética da desaparição que acontece por proliferação, contaminação, saturação, transparência e por simulação, como já foi dito por muitos autores, notadamente Baudrillard e Virilio.

Não é ainda um ponto que vá retirar o romantismo das almas aristocráticas que só se deslumbram com a experiência dos espaços in loco, territorialmente geolocalizados e imersos na sua terceira dimensão tectônica, no seu 'olhar tátil'. Mas já é o suficiente para ter transformado as diversas faces de muitas metrópoles pelo mundo, inclusive a arquitetônica: cada vez mais fluida e transitória.

É fato que só a relativamente pouco tempo esse caráter burguês, logo moderno, do consumo rápido de objetos tem chegado à arquitetura. Faz parte da mesma lógica dos sistemas de moda decifrados por Lipovetsky. E, claro, chega no chamado 'declínio do gosto', na acepção de um frankfurtiano como Adorno, desagradando autoritários de velhos regimes e de neomarxismos.

Por outro lado, a nova monumentalidade, presente em muitos dos recentes projetos do star system da arquitetura mundial, está longe de mostrar vitalidade na capacidade de semantização do antigo conceito de 'lugar'. Antes, denuncia uma certa fragilidade frente à competição com seus simulacros e realidades paralelas que circulam velozmente em forma de bytes e pixels.

Por fim, uma observação sobre os modestos intentos desses escritos. Cidade, comunicação e consumo não são termos encadeados como se fosse um lema ou palavras de ordem impressas numa bandeira, mas, antes, sinalizadores ou dispositivos operacionais para observações sobre as metrópoles contemporâneas a partir das suas lógicas mais recentes. O que nem sempre é um viés recebido de forma confortável por parte de um corpo técnico que se acha imbuido do dom de construir eternidades.

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